Como socializar um cachorro nos primeiros meses

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Fotografia: Lilipets

Os cães têm um período sensível de socialização que vai, mais ou menos, das 3 às 12 a 14 semanas de idade. Nesse tempo aceitam o que é novo com curiosidade, e o que conhecem com calma passa a fazer parte do mundo normal. Depois, a mesma novidade tende a ser recebida com desconfiança. Boa parte deste período passa-se ainda no criador, e um cachorro raramente chega a casa antes das 8 semanas. Para a família, sobram poucas semanas, e por isso contam muito.

O que acontece no criador

Entre as 3 e as 8 semanas, quem molda o cachorro é a mãe, os irmãos e o criador. Com a mãe e os irmãos aprende a brincar e a controlar a força da boca. Com o criador deve aprender a ser pegado ao colo, a ouvir os sons de uma casa (o aspirador, a televisão, a porta), a andar em superfícies diferentes e a conhecer pessoas que não são da família.

Um cachorro criado dentro de casa, no meio do movimento normal, chega mais preparado do que um que passou estas semanas num barracão isolado. Por isso vale a pena perguntar ao criador onde vivem os cães, que pessoas e situações os cachorros já conheceram e como os habitua. As respostas dizem muito sobre o cão que vai levar. O artigo sobre os sinais de um criador responsável tem mais perguntas a fazer na visita.

As primeiras semanas em casa

Quando o cachorro chega, entre as 8 e as 10 semanas, ainda tem algumas semanas abertas à novidade. O objetivo é que conheça muitas coisas diferentes e que cada encontro corra bem. Uma experiência boa vale mais do que dez em que ele passou o tempo assustado.

Algumas regras práticas:

  • Deixe-o decidir a distância. Ele aproxima-se quando estiver pronto. Pegar-lhe e pô-lo à frente do que o assusta tem o efeito contrário.
  • Junte a novidade a algo bom. Um petisco ou uma brincadeira quando passa uma bicicleta, quando ouve o secador ou quando uma pessoa nova o cumprimenta.
  • Sessões curtas, com pausas. Uns minutos de cada vez chegam. Um cachorro desta idade precisa de dormir muito para processar o que viveu.
  • Uma coisa nova de cada vez. Uma rua movimentada com trânsito, crianças e cães, tudo ao mesmo tempo, é demais para os primeiros dias.

Muitos cachorros passam por uma fase de maior receio por volta das 8 a 10 semanas, precisamente quando mudam de casa. Se ele se assustar com algo que ontem lhe era indiferente, volte um passo atrás e avance mais devagar.

E as vacinas?

Aqui há um conflito real. O plano de vacinação de um cachorro só fica completo por volta das 16 semanas ou mais tarde (as orientações da WSAVA, a associação mundial de veterinários de pequenos animais, recomendam doses a cada 2 a 4 semanas até às 16 semanas ou depois). Ou seja, a janela de socialização fecha antes de ele estar protegido. O parvovírus, a doença que mais preocupa, resiste meses no ambiente, em sítios por onde passaram cães infetados.

A posição da AVSAB, a sociedade americana de veterinários especialistas em comportamento, é que os cachorros devem começar a ser socializados antes de terminarem as vacinas, porque os problemas de comportamento por falta de socialização são um risco maior. Isso não quer dizer levá-lo para qualquer lado. Na prática:

  • leve-o ao colo ou num saco nas ruas, nas esplanadas e nas lojas onde os cães podem entrar; vê, ouve e cheira tudo sem pôr as patas no chão;
  • evite parques caninos, relvados públicos e os cantos dos passeios onde muitos cães desconhecidos fazem as necessidades;
  • deixe-o conviver com cães adultos saudáveis, calmos e com as vacinas em dia, em casa de amigos ou no seu quintal;
  • as aulas para cachorros podem começar cedo, se forem num espaço limpo e só com cachorros vacinados para a idade. A AVSAB aponta as 7 a 8 semanas, com pelo menos uma dose de vacina e a desparasitação feita uma semana antes.

Fale com o seu veterinário sobre os pormenores: o risco depende da zona onde vive e do plano de vacinas que ele seguir.

Uma lista para as primeiras semanas

Uma lista ajuda a não deixar nada de fora. Adapte-a à sua vida: quem vive numa cidade precisa de mais trânsito e elevadores, quem vive no campo de mais tratores e galinhas.

  • Pessoas: crianças, idosos, pessoas de chapéu, de barba, de óculos de sol, com guarda-chuva ou de bengala.
  • Animais: cães adultos calmos e vacinados, de tamanhos diferentes; gatos; os animais que houver na sua zona.
  • Sons: aspirador, secador, máquina de lavar, trânsito, trovoada e foguetes. Os dois últimos podem começar como gravações com o volume baixo, que vai subindo aos poucos.
  • Superfícies: relva, gravilha, azulejo, madeira, grelhas, areia.
  • Situações: viajar de carro, entrar num elevador, ser escovado, deixar mexer nas patas, nas orelhas e na boca, e ficar sozinho uns minutos.
  • O veterinário: uma visita só para receber um petisco e ir embora, sem picas, faz da clínica um sítio menos assustador.

A troca de dentes começa pouco depois, por volta dos 3 a 4 meses, e traz outra vaga de mordidelas; o artigo sobre a fase de dentição explica como a gerir.

Os sinais de que é demais

Um cachorro com medo nem sempre foge. Os sinais mais comuns são lamber os lábios, bocejar fora de horas, desviar o olhar, pôr a cauda baixa ou entre as pernas, encolher-se, ficar imóvel ou tentar esconder-se atrás de si.

Quando os vir, aumente a distância ao que o assusta, deixe-o recompor-se e termine com algo de que ele goste. Pode confortá-lo com calma; uma festa tranquila ajuda-o e não o torna mais medroso. Insistir e expô-lo outra vez ao mesmo medo, «para se habituar», costuma torná-lo mais medroso.

Depois das 14 semanas

A janela sensível fecha, mas o trabalho continua. Até à idade adulta o cão precisa de manter contacto regular com pessoas, cães e lugares diferentes, ou pode começar a desconfiar daquilo que conhecia em pequeno. A adolescência, entre os 6 meses e os 2 anos conforme a raça, traz às vezes uma segunda fase de receios.

Peça ajuda se o medo não melhorar com o tempo, se ele rosnar ou morder por medo, ou se não conseguir ficar sozinho. Comece pelo seu veterinário, que pode encaminhá-lo para um médico veterinário especializado em comportamento. Quanto mais cedo, mais fácil de resolver.

Se ainda está a decidir se é altura de ter um cão, estas semanas são um bom teste ao tempo que tem disponível. O artigo estou pronto para ter um cão? ajuda a responder antes.

Perguntas frequentes

Posso sair à rua com o cachorro antes de ter as vacinas todas?

Pode, com cuidado. Leve-o ao colo ou num saco nas ruas e evite o chão de sítios por onde passam muitos cães desconhecidos, como parques caninos e relvados públicos. Convívio com cães adultos saudáveis e vacinados, em casa de amigos, é seguro. Combine os pormenores com o seu veterinário.

Quando termina o período de socialização?

O período sensível vai mais ou menos das 3 às 12 a 14 semanas. Depois disso o cão continua a aprender, mas aceita o que é novo com mais desconfiança, por isso as primeiras semanas em casa são as que mais contam.

Quais são os sinais de que o cachorro está a ser exposto a demasiado?

Lamber os lábios, bocejar fora de horas, desviar o olhar, cauda baixa, ficar imóvel ou tentar fugir. Quando os vir, afaste-se do que o assusta e termine a sessão com algo de que ele goste.